Imagine duas descrições do mesmo trabalho.

Descrição A:
"Preciso de um novo site. Envie preço e prazo."

Descrição B:
"Preciso de um site para uma empresa de serviços B2B. O objetivo é aumentar o número de contactos qualificados. Atualmente temos 14 páginas, conteúdos existentes e identidade visual. Espero o design e a implementação da nova versão, a manutenção dos endereços atuais, suporte completo para dispositivos móveis e documentação básica de entrega. O sistema de reservas fica inalterado e está fora do âmbito. Queremos começar em outubro e lançar o site antes do fim de novembro."

A segunda descrição ainda não responde a tudo. Também não impõe tecnologia nem método de trabalho.

No entanto, oferece aos especialistas um ponto de referência muito mais comum.

Se cada pessoa está a avaliar um âmbito diferente, não está a comparar propostas. Está a comparar projetos diferentes com nomes parecidos.

Requisitos claros são necessários para uma avaliação e comparação de propostas com sentido

O atual Sourcing Playbook do Reino Unido afirma que uma especificação clara deve fornecer aos concorrentes informação suficiente para decidirem de forma informada se querem apresentar proposta. O documento também observa que, sem uma compreensão comum dos requisitos, é difícil relacionar os preços propostos com os custos e resultados esperados pelo comprador. [1]

A Government Commercial Function coloca a questão de forma ainda mais direta: uma boa especificação deve conter informação suficiente para os fornecedores calcularem corretamente os custos e para o comprador poder comparar propostas numa base equivalente. [2]

Ao mesmo tempo, o Digital, Data and Technology Playbook britânico alerta contra a definição excessiva da solução. Recomenda focar o utilizador, o problema e o resultado esperado, deixando espaço para os fornecedores proporem uma forma eficaz de o alcançar. [3]

A conclusão não é "descreva tudo com o máximo de detalhe possível". Uma regra melhor é:

descreva com precisão aquilo que tem de ser comum a todas as propostas, não aquilo que um especialista competente pode razoavelmente conceber por si.

O que precisa realmente de ser uniformizado para que as propostas sejam comparáveis?

Duas propostas profissionais nunca serão idênticas, e esse não deve ser o objetivo.

Comparabilidade significa que os especialistas respondem ao mesmo problema com premissas aproximadamente semelhantes.

Devem, por isso, ter uma compreensão semelhante de:

  • objetivo,
  • âmbito,
  • ponto de partida,
  • resultado esperado,
  • limitações importantes,
  • prazo,
  • responsabilidades do cliente,
  • forma de apresentar o preço,
  • critérios usados para avaliar a proposta.

Podem, no entanto, diferir em:

  • abordagem proposta,
  • ordem das atividades,
  • método,
  • composição da equipa,
  • ferramentas,
  • divisão em etapas,
  • forma de reduzir o risco.

Estas diferenças têm frequentemente valor e devem continuar visíveis.

12 informações que vale a pena incluir na descrição do trabalho

1. O problema que pretende resolver

Comece pelo problema, não por uma lista de funcionalidades.

Em vez de:

"Preciso de uma aplicação com painel, notificações e relatórios."

tente:

"Atualmente cinco pessoas gerem o processo através de folhas de cálculo e correio eletrónico. É difícil ver o estado atual de cada caso, quem é responsável e qual é a próxima tarefa. Queremos reduzir o acompanhamento manual e ter um único local com o estado atualizado."

A segunda descrição ainda não decide que aplicação deve ser construída.

Mas ajuda o especialista a compreender porque é que o projeto existe.

2. O resultado esperado

A Federal Acquisition Regulation para serviços baseados em resultados recomenda descrever o trabalho principalmente através dos resultados exigidos, e não pela forma de execução ou pelo número de horas. A sua declaração mínima de objetivos inclui elementos como finalidade, âmbito, contexto, resultados necessários e limitações operacionais. [4]

Por isso, descreva o que deverá ser possível quando o trabalho terminar.

Por exemplo:

  • um utilizador consegue concluir sozinho um processo definido,
  • a equipa consegue consultar o estado atual de todos os casos,
  • o cliente recebe uma análise com prioridades,
  • o sistema é transferido para um novo ambiente e funciona segundo critérios acordados,
  • o material preparado está pronto para publicação num canal definido.

O resultado deve ser suficientemente concreto para que ambas as partes compreendam a direção do trabalho.

Não precisa de significar uma garantia de resultado comercial que dependa do mercado, do comportamento dos utilizadores ou de outros fatores fora do controlo do fornecedor.

3. O estado atual e o ponto de partida

A mesma necessidade final pode exigir esforços muito diferentes consoante o ponto de partida.

É útil indicar:

  • o que já existe,
  • o que funciona e deve ser preservado,
  • o que não funciona,
  • se existem ficheiros fonte,
  • se existe documentação,
  • se há dados a migrar,
  • se é necessário trabalhar sobre um sistema existente,
  • que materiais já estão prontos.

"Um novo site" pode significar construir de raiz ou reconstruir um site existente preservando conteúdos, endereços, análise, integrações e dados.

São trabalhos diferentes, mesmo que o resultado visual final possa parecer semelhante.

4. Âmbito obrigatório e limites do projeto

O âmbito não deve obrigar os especialistas a adivinhar que partes do problema devem avaliar.

Por exemplo:

Incluído:

  • análise da solução atual,
  • design de novas vistas,
  • implementação,
  • migração de uma parte definida dos dados.

Fora do âmbito:

  • criação de novos conteúdos,
  • compra de licenças,
  • manutenção após o primeiro mês,
  • reconstrução do sistema de pagamentos.

O exemplo de Terms of Reference do Banco Mundial sublinha que os requisitos e expectativas dos serviços devem ser claramente articulados e adaptados ao projeto concreto. [5]

Os limites são especialmente importantes quando duas tarefas estão naturalmente relacionadas e seria fácil presumir que uma inclui a outra.

5. Elementos concretos que devem ser entregues

Se espera materiais ou resultados concretos, identifique-os.

Podem incluir:

  • uma solução funcional,
  • ficheiros fonte,
  • um relatório,
  • documentação,
  • design visual,
  • um conjunto de materiais,
  • configuração de ambiente,
  • formação,
  • gravação,
  • transferência do código e acessos.

Palavras como "design", "análise" ou "implementação" podem ser interpretadas de formas diferentes.

Uma lista comum dos principais elementos a entregar ajuda a evitar que uma proposta inclua muito mais do que outra, mas que essa diferença fique escondida sob nomes de serviço semelhantes.

6. Limitações e condições que não podem ser ignoradas

Nem toda a limitação é um detalhe técnico.

Podem ser relevantes, por exemplo:

  • um sistema ou ambiente obrigatório,
  • integração necessária com um serviço específico,
  • requisitos de acessibilidade,
  • regulamentação setorial,
  • restrições de armazenamento de dados,
  • necessidade de manter a infraestrutura atual,
  • dispositivos ou navegadores específicos,
  • trabalho em horários definidos,
  • acesso limitado aos dados.

A FAR inclui explicitamente limitações operacionais na declaração de objetivos, enquanto o Digital, Data and Technology Playbook britânico mostra por que não se deve impor uma solução quando não existe uma limitação real. [4] [3]

Uma boa regra:

indique aquilo que o especialista não pode alterar, mas não invente uma limitação apenas porque está habituado a uma determinada solução.

7. Materiais, acessos e responsabilidades do cliente

O especialista deve saber em que nível de colaboração pode basear a proposta.

Indique se irá disponibilizar:

  • uma pessoa com poder de decisão,
  • acesso aos sistemas,
  • materiais existentes,
  • dados,
  • contas de teste,
  • informações da equipa,
  • acesso a utilizadores,
  • conteúdos,
  • reuniões regulares,
  • respostas dentro de um prazo definido.

Se ainda não sabe o que poderá fornecer, também vale a pena dizê-lo.

A falta de acesso a dados, materiais ou pessoas pode alterar o método, o custo e o prazo. Não é um pequeno detalhe administrativo. Faz parte das condições em que a proposta é construída.

8. Prazo, datas importantes e flexibilidade do calendário

Nem todas as datas têm o mesmo significado.

Distinga entre:

  • data preferida de início,
  • prazo improrrogável,
  • data ligada a um acontecimento externo,
  • data indicativa,
  • etapas que têm de ocorrer numa determinada ordem.

Se um prazo realmente não puder mudar, explique porquê.

Se for flexível, diga também.

Assim, o especialista pode propor outro âmbito, outra ordem ou uma execução por etapas, em vez de assumir que todas as datas são exigências absolutas.

9. O orçamento ou, pelo menos, como pretende comparar os preços

Não existe uma regra única segundo a qual o cliente deve sempre revelar o orçamento total.

Consoante a situação, pode indicar:

  • orçamento máximo,
  • intervalo de orçamento,
  • orçamento para a primeira etapa,
  • que primeiro pretende uma proposta de âmbito e só depois o preço,
  • estrutura esperada para a decomposição do preço.

Para comparar, o mais importante é que os especialistas apresentem os custos numa estrutura semelhante.

Por exemplo:

"Indique separadamente o preço de análise, design, implementação e manutenção mensal. Identifique também os custos de serviços externos que não estão incluídos."

Este formato é muito mais fácil de comparar do que quatro valores totais em que cada um inclui coisas diferentes.

10. As principais incógnitas, premissas e riscos

A incerteza não desaparece só porque não foi escrita.

Se não sabe:

  • quantos dados será necessário migrar,
  • se uma interface externa permite a operação necessária,
  • se todos os conteúdos estarão prontos,
  • se o código atual pode ser razoavelmente desenvolvido,
  • se uma aprovação necessária será obtida a tempo,

diga-o.

O guia do GAO sobre estimativas fiáveis de custos destaca a importância de premissas explícitas e da análise do risco e da incerteza. [6]

Um bom especialista pode então:

  • incluir uma reserva,
  • propor uma etapa de diagnóstico,
  • avaliar variantes,
  • indicar uma condição que alteraria o preço,
  • recusar fingir uma precisão que ainda não pode ser alcançada de forma honesta.

Uma incógnita explícita é melhor do que uma premissa escondida.

11. Critérios de escolha, não apenas o preço

Se já sabe o que será importante na decisão, diga-o antes de as propostas serem preparadas.

Pode avaliar:

  • adequação da abordagem proposta,
  • experiência com problemas semelhantes,
  • qualidade das provas de trabalho anterior,
  • realismo do calendário,
  • disponibilidade,
  • forma de gerir o risco,
  • competências das pessoas que irão efetivamente trabalhar no projeto,
  • preço,
  • custo de manutenção,
  • qualidade da comunicação.

A orientação atual do Banco Mundial sobre Rated Criteria indica que critérios não relacionados com o preço podem incluir a qualidade da metodologia e do plano de trabalho, gestão do risco, capacidade de execução e pessoal-chave. Os critérios são adaptados ao projeto e ponderados segundo a sua importância relativa. [7]

Isto não significa que um pequeno trabalho precise de pontuação formal.

Basta conseguir responder antes de enviar o pedido:

"O que, além do preço, faria uma proposta ser melhor para mim do que outra?"

12. Um formato comum de resposta

Se quer realmente comparar propostas, peça a todos que respondam ao mesmo conjunto básico de perguntas.

Por exemplo:

1. Como entende o problema e o resultado esperado?
2. Que abordagem propõe?
3. O que inclui exatamente a sua proposta?
4. O que fica excluído?
5. Que premissas está a assumir?
6. Qual é o calendário?
7. De que precisa do cliente?
8. Quais são os principais riscos?
9. Qual é o preço e o que inclui exatamente?
10. Que experiência ou provas de trabalho semelhantes são relevantes para este projeto?

Na contratação pública, a normalização das respostas, critérios e formatos de preço serve precisamente para permitir que as propostas sejam avaliadas numa base comum. A Government Commercial Function destaca a necessidade de fornecer informação suficiente para um cálculo correto e uma comparação equivalente. [2]

Um formato comum não deve apagar as diferenças entre especialistas. Deve apenas tornar essas diferenças visíveis nos mesmos pontos.

Deve indicar o orçamento?

Depende do objetivo do pedido.

Partilhar o orçamento pode ajudar quando:

  • o âmbito pode ser ajustado aos recursos disponíveis,
  • pretende uma recomendação para a melhor opção dentro de um limite definido,
  • quer eliminar rapidamente propostas incompatíveis com a realidade financeira do projeto.

Não partilhar o orçamento completo pode fazer sentido quando:

  • primeiro pretende uma visão independente sobre o âmbito adequado,
  • ainda não conhece o custo realista,
  • está a comparar diferentes modelos de solução,
  • o processo exige outra forma de recolher preços.

O pior cenário não é necessariamente não indicar orçamento, mas não explicar que tipo de resposta de preço espera.

O especialista deve saber se deve apresentar um valor único, intervalo, variantes, preço por etapas ou premissas necessárias para uma estimativa mais precisa.

Não esconda as incógnitas apenas para a descrição parecer mais profissional

Uma boa descrição do trabalho não precisa de responder a todas as perguntas.

Pode dizer honestamente:

  • "Ainda não sabemos se o sistema atual pode ser desenvolvido com segurança.",
  • "Não sabemos o número exato de registos que terão de ser migrados.",
  • "Ainda não decidimos se a segunda versão linguística faz parte da primeira etapa.",
  • "Precisamos de ajuda para escolher a melhor opção."

É informação valiosa.

A incerteza deve influenciar a forma como a proposta é preparada, não desaparecer do documento.

Em algumas situações, o melhor primeiro serviço não é a execução completa, mas uma curta etapa de diagnóstico que termina com uma decisão, um âmbito mais preciso ou uma estimativa mais fiável.

Exemplo: uma descrição mais curta que produz melhores propostas

7 erros que dificultam a comparação de propostas

1. Dar a cada especialista um conjunto diferente de informações.

2. Enumerar funcionalidades sem explicar o problema e o objetivo.

3. Não indicar o que já existe.

4. Esconder limitações que mais tarde alteram a forma de execução.

5. Pedir um único preço final sem explicar o que deve incluir.

6. Avaliar propostas segundo critérios que nem o próprio cliente definiu antecipadamente.

7. Confundir uma descrição detalhada do problema com a imposição detalhada da solução.

14 perguntas antes de enviar o pedido

1. Descrevi claramente o problema e não apenas a solução que imaginei?
2. Está claro o resultado que quero alcançar?
3. O especialista compreende o estado atual?
4. Está claro o que deve ser preservado?
5. Os limites do primeiro âmbito são claros?
6. Indiquei os principais elementos a entregar?
7. Indiquei as limitações reais?
8. Está claro o que vou fornecer do meu lado?
9. O prazo está descrito juntamente com a sua flexibilidade?
10. O formato do preço permitirá comparar propostas?
11. Descrevi abertamente as principais incógnitas?
12. Sei o que vou avaliar além do preço?
13. Todos os especialistas vão responder a um conjunto semelhante de perguntas?
14. Deixei espaço para uma solução melhor do que aquela que eu próprio imaginei?

A melhor descrição não conta tudo ao especialista. Diz-lhe tudo o que precisa de saber

Uma boa descrição do trabalho tem dois objetivos aparentemente opostos.

Deve ser suficientemente concreta para que vários especialistas avaliem o mesmo problema.

Ao mesmo tempo, deve ser suficientemente aberta para cada um poder propor a sua própria abordagem, possivelmente melhor.

Uma ordem útil é:

problema -> resultado -> estado atual -> âmbito -> elementos a entregar -> limitações -> responsabilidades do cliente -> prazo -> formato do preço -> incógnitas e riscos -> critérios de escolha -> formato comum de resposta.

Se, depois de receber as propostas, descobrir que uma pessoa avaliou o projeto completo, outra apenas a análise e uma terceira assumiu integrações adicionais, o problema pode não estar nos orçamentos.

Talvez cada pessoa tenha recebido um trabalho diferente, mesmo tendo sido enviado o mesmo texto a todos.

Fontes e leitura adicional

[1] UK Government - The Sourcing Playbook
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[2] Government Commercial Function - How to write a procurement specification
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[3] UK Government - The Digital, Data and Technology Playbook
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[4] U.S. Federal Acquisition Regulation - Subpart 37.6, Performance-Based Acquisition
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[5] World Bank - Sample Consultants Terms of Reference
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[6] U.S. Government Accountability Office - Cost Estimating and Assessment Guide, GAO-20-195G
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[7] World Bank - Rated Criteria
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Nota metodológica: as fontes vêm sobretudo da contratação pública e da gestão de custos. Não são apresentadas como regras diretamente aplicáveis a um mercado privado de especialistas. O artigo utiliza apenas os princípios que efetivamente sustentam: clareza dos requisitos, foco nos resultados, premissas e riscos explícitos, informação de preços comparável e avaliação da qualidade com critérios para além do preço.

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